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Pregar não é para qualquer um...

O teólogo Luiz Sayão defende que é impossível ser um pregador fiel às Escrituras Sagradas sem conhecimento das línguas originais.





Apresentar pessoas que dispensam apresentações é uma tarefa que, em geral, acaba levando à formulação de uma extensa lista de predicados e adjetivos. Difícil fugir desse lugar-comum quando a pessoa em questão é Luiz Alberto Teixeira Sayão – ou, simplesmente, Luiz Sayão. 

Personagem importante da Igreja Evangélica brasileira, pela contribuição em áreas diversas, esse pai de cinco filhos completa este ano meio século de vida com uma atuação significativa em frentes de atuação que vão dos púlpitos aos livros.
No campo eclesiástico, é pastor da Igreja Batista Nações Unidas, em São Paulo (SP). Na área acadêmica, tem passagem por respeitadas instituições de ensino teológico, como o Seminário Servo de Cristo e a Faculdade Teológica Batista de São Paulo. Atualmente ocupa o cargo de diretor do Seminário Batista do Sul do Brasil, no Rio de Janeiro (RJ). Em comunicações, é produtor e apresentador de programas e séries de DVD produzidos e transmitidos pela Rádio Trans Mundial.

Ativo no meio editorial, Sayão é escritor, tradutor, consultor editorial e integrante de comissões responsáveis por diferentes bíblias. Foi coordenador de tradução da Nova Versão Internacional (NVI) e da Versão Almeida Século 21, além de editor do Antigo Testamento Poliglota e da Bíblia de Estudo Esperança, entre outros. Sua atuação no mundo dos livros lhe rendeu, em 2003, o prêmio de Personagem Literário do Ano, conferido pela Associação Brasileira de Editores Cristãos. E os predicados não param: articulista, palestrante, conferencista, teólogo, linguista e hebraísta (com mestrado em Língua Hebraica, Literatura e Cultura Judaica pela Universidade de São Paulo - USP).
Do alto de toda essa bagagem, Sayão conversou com a LIDERANÇA HOJE sobre a importância de o pregador dominar o hebraico, o aramaico e o grego, as línguas originais em que a Bíblia foi escrita, para estudar a Palavra, preparar o sermão e entregar a mensagem.


É possível ser um pregador fiel às Escrituras Sagradas sem conhecimento das línguas originais?

LUIZ SAYÃO - 
Não. Ainda que não seja possível conhecer todos os elementos linguísticos necessários, é necessário fundamentar o conhecimento sobre o texto em comentaristas que têm a informação necessária. De qualquer modo, é preciso ter conhecimento direto ou indireto das línguas originais.


Qual é exatamente a importância de um pregador conhecer as línguas originais da Bíblia para preparar seus sermões?

Com toda certeza a importância é muito grande. Pois estamos falando de pessoas que estão explicando e interpretando um texto traduzido de escritos muito antigos, escritos numa cultura totalmente diferente, em um contexto absolutamente distinto. Ter conhecimento das línguas originais e do contexto no qual o texto surgiu deveria ser o ponto de partida para qualquer pessoa pregar a partir das Escrituras.


Que perigos há no desconhecimento das línguas originais na pregação?

Creio que o perigo maior é afastar-se de uma abordagem exegética, já que ela se mostra trabalhosa e exigente. Como sente que tem pouco preparo, não só o pregador pode deixar de prosseguir pela exegese, como também acabar entrando em uma abordagem frágil e subjetiva. Parece-me que essa é a razão por que tantos pregadores não explicam o texto, mas caminham por enfoques socializantes, psicologizantes, espiritualizantes e politizantes. O grande problema é a manipulação do texto, pois a falta de informação técnica e objetiva é substituída por ideias próprias e o texto acaba servindo a outros propósitos que não os do autor.


É muito comum ver exatamente isso: pregadores que falam o que querem, sem dar atenção para o texto original. Como evitar isso?

Não sei. É lamentável. A prática é muito comum. Infelizmente, a pessoa fala o que acha e prefere e não levar a sério o próprio texto. Creio que o ouvinte que tiver um mínimo de bom senso não pode dar atenção a quem fala sem fundamento e base.


Que danos o senhor entende que podem ocorrer, no longo prazo, pelo fato de muitos estarem pregando sem conhecimento das línguas originais, de acordo com suas interpretações pessoais?

Na prática vamos "escrever" um outro evangelho e construir uma tradição paralela, uma espécie de heresia. O grande perigo da atitude de rejeitar a pregação com fundamentação exegética é que pomos o texto bíblico em segundo plano. Consequentemente, o pregador será refém de sua visão subjetiva. Por isso, ouvimos tanta coisa em nome das Escrituras que nada tem a ver com o texto. Sem falar do fato de que muitos púlpitos, por não serem atingidos pela Palavra de Deus, são definidos por um confessionalismo tradicionalista, um pragmatismo irrefletido ou uma manipulação de massa.


Se o pregador não tem conhecimento das línguas originais, de que modo pode suprir essa deficiência?

Hoje em dia vivemos uma situação muito favorável no aspecto literário teológico em português. Há muito material especializado e confiável que pode suprir a deficiência do conhecimento de hebraico, aramaico e grego. Temos bons dicionários teológicos, bons dicionários de hebraico e de grego, boas bíblias de estudo, alguns comentários exegéticos sérios e excelentes ferramentas – como chaves linguísticas. Tudo isso é muito útil e valioso para estudar o texto bíblico. Além disso, a internet tem muitas ferramentas. Quem pode ler outras línguas, principalmente alemão e inglês, terá ainda um gigantesco universo de pesquisa bíblico-exegética. No contexto evangélico, merecem destaque editoras como Vida Nova, Hagnos, Vida, Casa de Cultura Cristã e Sociedade Bíblica do Brasil (SBB), que têm publicado a maioria do material exegético e técnico útil para o estudioso da Bíblia.


Ao pregador que desconhece as línguas originais não bastaria esse bom material de estudo, ou é preciso, de fato, se aprofundar nos idiomas?

Desconhecer as línguas originais para o pregador e para o teólogo é como um médico que não estudou Anatomia ou como um engenheiro que deixou Cálculo e Geometria de lado. É menosprezar a base. O ideal é conhecer as línguas originais e aprofundar-se, mas, como isso está longe da realidade, pelo menos se espera que os pregadores utilizem as ferramentas que trazem o resultado de estudo feito com base linguística, exegética e hermenêutica. O conselho é utilizar material acadêmico confiável e bem fundamentado e ir desenvolvendo o conhecimento do grego e do hebraico.


Que caminhos um pregador deve seguir para saber o que dizem, de fato, os originais?

A maneira mais prática é usar bons comentários exegéticos. Um comentário responsável e bem elaborado trata das questões de crítica textual, do pano de fundo histórico, do contexto, da semântica e da sintaxe do texto. Além disso, as questões hermenêuticas mais relevantes geralmente são destacadas. Alguns comentários incluem aplicação prática pertinente. Creio que é muito importante pelo menos ter condição de acompanhar um bom comentário. É preciso ter um nível de formação mínimo para poder aproveitar as boas ferramentas. Outra coisa importante é entender que estudar grego e hebraico por um ou dois semestres é muito pouco. É como sair clinicando depois de alguns semestres no curso de Medicina. É preciso pelo menos entender a sintaxe da língua e entender o processo exegético.


No caso do ouvinte que recebe a mensagem, de que modo ele pode julgar se o pregador está sendo fiel aos originais?

Vai depender muito do nível do ouvinte. Corremos o risco de cair no problema do "me engana que eu gosto". O pregador faz de conta que prega e o ouvinte faz de conta que está levando a sério. Pelo menos é valioso usar uma boa Bíblia de Estudo – recomendo a NVI ou a Shedd – e prestar atenção à coerência inicial da abordagem e do tratamento do texto. Se o ouvinte não for muito despreparado, logo perceberá que o pregador não está atento ao texto original.


Como podemos comparar a realidade da Igreja brasileira de hoje com os gentios convertidos ao cristianismo nos primeiros séculos, que recebiam as Boas-Novas sem conhecer o hebraico e o aramaico?

A comparação não é adequada. A distância entre os dois grupos é gigantesca. Vale a pena lembrar que o contexto histórico, cultural e geográfico é muito favorável aos primeiros gentios convertidos. Todo mundo estava no Império Romano, a maioria falava bem o grego, e muito da realidade descrita no texto fazia todo sentido. É verdade que muitos não conheciam o hebraico e o aramaico e não entendiam muita coisa do contexto judaico. A diferença, porém, é que eles estavam muito próximos da realidade original dos apóstolos e dos discípulos. Há um certo paralelo, mas a vantagem deles era muito maior em vários aspectos.


Para pregar basta abrir a boca e Deus a encherá?

Deus só poderá encher daquilo que é de fato sua Palavra. Isso está revelado nas Escrituras, que devemos tratar com toda responsabilidade.


O que dizer àqueles que usam 2Coríntios 3.6 (a letra mata, mas o Espírito vivifica) para justificar a falta de estudo?

Esse texto está contrapondo o evangelho de Cristo ao legalismo de origem farisaica. A questão é como se entendia a lei. O contraste é feito entre as duas alianças – Sinai e Cristo – e fica claro que só podemos viver a vida que Deus deseja por meio do Espírito. Isso nada tem a ver com deixar de estudar a Bíblia e nem com a ideia de que Deus vai revelar a mensagem diretamente para o pregador. A contradição é que quem afirma isso está lendo o texto de 2Coríntios 3.6 e interpretando o texto, ainda que incorretamente.


O pentecostalismo trouxe muito forte a ideia da "revelação" de Deus na hora da pregação. Como devemos ver isso à luz do estudo exegético das Escrituras?

A questão tem de ser bem compreendida. O livro de Atos é o mais organizado e estruturado do Novo Testamento. Tudo tem estratégia em Atos! Mas tudo também acontece pelo poder e a direção do Espírito Santo. Quando estudamos Hermenêutica, falamos sobre a ação do Espírito, que é um conceito absolutamente bíblico. O problema é onde entra essa ação. A chamada "revelação" – ou "intuição espiritual" – pode ter o seu lugar, no sentido de que o pregador pode sentir de Deus uma necessidade da congregação ou tem uma direção divina de abordar uma certa questão. Até mesmo na hora da mensagem, certas palavras e expressões podem ser diretamente direcionadas por Deus. Todavia, não se pode aceitar a ideia de que o Espírito "revela o sentido oculto" da Bíblia. Não se pode descobrir o sentido do original nem se pode interpretar o texto corretamente por ação direta do Espírito. É necessário estudar o texto, refletir e meditar sobre o seu significado. Outro papel fundamental do Espírito é quebrar a nossa resistência à Palavra divina e nossa tendência de manipulá-la. Um coração dependente de Deus e submisso a ele terá temor de desrespeitar a Palavra.


Quais as consequências para uma igreja na qual o modelo de pregação é centrado mais no tema do que na pregação bíblica e expositiva?

A pregação temática é mais fácil, mais pragmática e costuma ser preferida. A dificuldade é que não ouvimos o texto em si nem compreendemos as Escrituras. O modelo temático tende a ser mais manipulativo, pois eu escolho um tema e vou selecionando textos que falem do assunto, mas encaixo as coisas a partir da minha própria perspectiva. O problema é que os textos bíblicos são distintos e heterogêneos, pois são de épocas diferentes e tratam de temas específicos. Para juntar e relacionar esses textos adequadamente é muito mais difícil do ponto de vista hermenêutico e teológico. É preciso ouvir o texto bíblico. As Escrituras é que trazem vida à Igreja. Vamos deixar o texto falar, inclusive de assuntos que não são de nossa preferência.


Por que hoje as pregações temáticas são as mais utilizadas pelos pastores evangélicos, mesmo nas igrejas históricas?

Por várias razões. Primeiro porque muitos aprenderam esse modelo. Segundo, porque parece mais simples e fácil de fazer. Terceiro, porque o enfoque bíblico e exegético incomoda as estruturas rígidas e pré-definidas. Quarto, porque o pregador ou pastor pode conduzir o grupo para onde preferir. Infelizmente, esse não é o melhor caminho. É preciso mudar essa cultura.


Ao que parece, cada vez mais seminários dão ênfase menor ao estudo do grego, do hebraico e do aramaico. De que forma os seminários podem enfatizar a utilização de sermões expositivos, com o uso das línguas originais?

A única maneira é oferecer matérias que demonstrem isso. É preciso estudar grego e hebraico de verdade. É necessário fazer exegese. É muito valioso estudar livros bíblicos, acompanhando o original. É preciso mostrar a diferença de uma pregação exegética bem fundamentada e as outras alternativas. A falta de fundamentação exegética tem levado muitos a procurar outra fonte de referência. Na minha opinião, há poucas alternativas: pragmatismo tradicionalista preteritófilo (de vários tipos), manipulação mística, teologia existencialista ou psicologista radical ou teologia socializante, geralmente liberal. Os seminários estão mais fracos, de modo geral. Os alunos chegam sem ter lido a Bíblia com atenção e há falta de estudo exegético e bíblico. É preciso mudar esse panorama.


O que dá poder à pregação?

Creio que são dois elementos principais. Um é a submissão à Palavra e o estudo aprofundado e detalhado do texto. É preciso descobrir porque o texto foi tão impactante para quem o recebeu originalmente. A outra questão é a situação do coração de quem prega diante de Deus. É o exercício da espiritualidade pessoal. Antes de pregar para os outros, é preciso pregar para si mesmo. Quando o texto produz impacto em minha vida, isso atingirá os outros no púlpito. A pregação não pode ser uma espécie de mero trabalho técnico, desprovido de relação pessoal e espiritual profunda com o texto.



Luiz Sayão também é autor do comentário bíblico em áudio "Rota 66"


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1 Comentário:

Pedro A. disse... [Responder comentário]

eu acho que hoje em dia tem muito blablabla teológico... dá muito bem levar as mensagens de boas novas estudando pelo poder do Espírito Santo, todos esses termos teológicos não adianta nada se não orar constantemente por uma verdadeira revelação.

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